Journal December 2025 Release - Flipbook - Page 86
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Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Sim, buscamos estas narrativas que trazem luz e vida para a história alternativa.
Durante o encontro com o outro internalizado, o convite para a pessoa entrar na
‘brincadeira de faz de conta’ e conversar ‘como se’ fosse alguém querido gera
uma quebra na lógica individualista segundo a qual “eu sou eu e você é você”. A
pessoa aceita ‘entrar na toca do coelho’ e embarca em uma dinâmica na qual é
ela quem fala, mas, também, é ela quem escuta o que é dito. Sendo
simultaneamente ator que apresenta e plateia que assiste, a pessoa se torna
testemunha externa de uma conversa que acontece a partir dela e que surge de
dentro – nesse mágico mundo dos afetos e das narrativas prestes a nascer. E esse
estilo de escuta ‘desde dentro’ torna possível uma reflexão diferenciada entre a
pessoa e sua história de vida. Como me relatou uma moça após a conversa com o
outro internalizado: “Que gostoso conversar como se fosse a minha tia! Me deu
uma paz, uma alegria... Como ela gosta de mim! E quantas coisas temos em
comum!”
Desta forma, a conversa com o outro internalizado revela elementos que se
tornam matéria prima dos encontros subsequentes. Ela não é a terapia em si, mas
parte de um contexto maior, entrando no fluxo terapêutico como uma forma de
“acordar memórias” (Benites, 2023) e ativar histórias preciosas nas quais eu,
ele/a, nós... todos habitamos o mesmo tempo da narrativa, dando voz a futuros
possíveis e inédito-viáveis.
Termino esse artigo esperançando que você também possa vivenciar esse tipo de
encontro mágico e potente que acontece quando entramos na toca do coelho e
deixamos as perguntas serem o pó de pirlimpimpim que promovem
maravilhosidades.
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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