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implicou no que aconteceu? Nesse caminho de brasilidades, lhe apresento alguns
autores brasileiros que me guiam ao longo da minha jornada teórica.
Inicio a resposta dizendo que acreditei no tempo tríbio proposto por Gilberto
Freyre (2001). Acreditei na possibilidade de um tempo não-linear, um tempo da
sabedoria ancestral que corre como um rio, entrelaçando o que foi, o que é e o
que será em um único fluir de existência. É por meio desse entendimento que
percebo a conversa do outro internalizado e a conversa de dizer olá novamente
podendo ser construídas e habitadas. Sim, o outro a quem amamos – as pessoas
significativas – vivem em nós para além da limitação de tempo e espaço e, por
isso mesmo, podem ser acessadas e evocadas. Suas vozes podem ser ouvidas,
suas histórias podem ser honradas, seus legados podem ser habitados por nós.
O que Sílvia e Ayla nos apresentam sobre a vivência delas durante a conversa com
o outro internalizado mostram que as pessoas que já faleceram continuam sim,
presentes em nossas vidas, somente aguardando que a gente lhes diga ‘olá
novamente’ para poderem revelar histórias que guardam preciosidades.
Além disso, ousei seguir para além do conhecido e familiar. Aceitei o convite de
Paulo Freire (1987) e caminhei em direção ao inédito-viável: aquilo que ainda não
é (daí ser inédito), mas que tem a possibilidade de vir a ser (daí ser viável). Tal
caminho se faz com paciência e confiança, com cuidado e respeito, com alegria e
leveza. A conversa com o outro internalizado requer paciência para ir construindo
os andaimes entrelaçando perguntas e respostas, e confiança de que esses
movimentos vão revelar aspectos importantes. Quando as histórias aparecem,
tratamos delas com o cuidado e o respeito de um arqueólogo por uma peça
recém-descoberta: pincelar com suavidade, deter-se nos detalhes, manusear a
descoberta com encantamento acreditando em todo o potencial que elas
carregam. E seguimos narrativando essas histórias, fazendo perguntas de duendes
que trazem alegria e descontração, e contribuindo para que cada pessoa possa
continuar escrevivendo sua vida com leveza.
Também fui em busca da partícula preciosa que Bernadete Lyra (2018) sempre
menciona: aquela palavra, ideia, sentimento, sensação, lembrança ou imagem
que faz nosso coração ficar atento e desperta em nós a curiosidade urgente de
construir uma narrativa. Um acontecimento singular, nas palavras de Michael
White (2012). Uma Vemaguet azul turquesa ou uma lembrança saudosa de
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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