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Desde o início da consulta ela falou do seu pai, sempre com orgulho e alegria. Foi,
então, que resolvi propor que fizéssemos a conversa com o outro internalizado.
Chamei essa experiência de “uma brincadeira de faz-de-conta” na qual ela seria o
Seu Gabriel e eu conversaria com ele. Ela aceitou e começamos a brincadeira. Não
tenho registro das perguntas, somente de algumas respostas que ele foi dando e
que anotei pela força que continham. Apresento, então, o meu relato dessa
conversa.
Iniciei pedindo para ela se lembrar de seu pai: sua voz, seu olhar, seu perfume,
sua forma de andar e de falar. Então, disse para a Ayla que não queria ser
desrespeitosa com seu pai e pedi para que ela me direcionasse sobre como ele
gostaria de ser chamado e como eu deveria me referir a ele. Ficou combinado que
eu o chamaria ‘Seu Gabriel’ e que poderia chamá-lo de você, afinal, ele tinha me
conhecido e não se sentiria desrespeitado.
Sempre começo a conversa logo após esse combinado, para estabelecer a
diferença entre a pessoa e o outro internalizado. Portanto, eu disse: “Então, Seu
Gabriel, podemos começar a nossa conversa? Faz tempo que não lhe vejo, como
o senhor está?” A intenção, neste momento, é criar um clima descontraído, de
brincadeira, para que a pessoa possa se sentir tranquila. Costumo fazer perguntas
cuja respostas eu já conheço – e a pessoa sabe disso também – para ir
construindo os andaimes que partem do conhecido e familiar em direção ao que
é possível ser conhecido.
Para isso, fiz perguntas que enfocavam as relações familiares – um tema tão
importante para ele – e as considerações que ele tinha a fazer sobre como os
filhos estavam administrando a sua ausência. Em seguida, passei para outro nível
de perguntas e conversamos sobre como ele percebia a questão dos cuidados que
a Ayla estava tendo com Dona Luzia. Ao longo dessas perguntas pude perceber
que ela estava cada vez mais conectada com o outro internalizado: sua postura
física, a forma como ela falava, um jeito diferente de olhar, me mostravam que eu
estava conversando com o Gabriel da Ayla. Foi então, que passei a perguntar
sobre considerações mais subjetivas dele em relação à filha, tais como: “Seu
Gabriel, o que o senhor admira na Ayla?”, “O que o senhor tem admirado na sua
filha ao longo desses anos, que sempre lhe chamou a atenção?”, “Ela sempre foi
assim ou isso é algo que foi sendo aperfeiçoado ao longo da vida dela?”. Também
fiz perguntas sobre quais dicas ele teria para dar à sua filha agora que ele estava
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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