Journal December 2025 Release - Flipbook - Page 78
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Falamos da Vemaguet que ele adorava e com a qual levava, às vezes, a mim e aos
meus irmãos à escola. Ela perguntou a ele sobre a sua neta. Sobre o que ela
achava de ir para a escola em um carro antigo, barulhento e que soltava fumaça.
E ele respondeu que ela gostava, não ligava para essas coisas.
Falamos das flores, dos aniversários, das exposições de porcelana, dos
ensinamentos que ele me passou e, a cada momento, eu era mais ele do que eu.
Sabia o que ele diria, como sentia, o que pensava sobre a vida, sobre a nossa
história de avô e neta, e sobre mim.
Então, Adriana foi deixando que as perguntas ganhassem profundidade e que
tocassem no meu momento de dor. Ela perguntou ao meu avô sobre
relacionamentos e o que ele poderia me dizer sobre o que eu estava passando.
Sobre o que ele deixou de me ensinar.
Ele me pediu perdão por não ter conseguido me ensinar a escolher um amor que
me fizesse bem. Ele se desculpou porque nunca falamos sobre isso e o quanto ele
gostaria de ter me alertado. Ele me falou sobre saudade, admiração e sobre a
certeza de que eu ia limpar esse carma de relacionamentos desleais para adentrar
em uma nova fase. Ele disse que acreditava em mim e que ele não queria mais
que eu sofresse assim.
Eu precisava muito me lembrar do quanto eu já havia sido amada, de como era
bom quando as pessoas riam comigo e se alegravam com a minha presença. O
encontro com o meu avô encheu meu peito de amor, de confiança e de
esperança.
Eu nunca, nunca mais me esquecerei desse dia. Eu vivi ciente de que aquele era
um momento que iria morar na minha memória para sempre.
Terminei a sessão chorando e sorrindo, com uma saudade apertada do meu avô,
mas com a certeza de que vai caber a mim mudar o rumo dessas histórias
incompletas e hostis. Eu sou do Amor e vou encontrar alguém suave, firme,
amoroso, de esquerda, de sonhos, da música, da poesia e dos melhores valores
do mundo.
Obrigada Adriana por essa experiência curativa, reparadora e profundamente
respeitosa, criativa e afetuosa. Obrigada Vô por ainda estar tão vivo dentro de
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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