Journal December 2025 Release - Flipbook - Page 77
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ele que olhava para tudo o que eu fazia e dizia: é lindo!
Nos meus aniversários, colhia flores – ele mesmo – e ornava a minha casa para
que eu a visse enfeitada quando acordasse. Nas manhãs em que nos visitava, ao
me ver, repetia: bom dia, flor do dia! Quanto tempo eu não te via!
Era ele com quem eu precisava muito falar, mas eu não sabia. Nunca imaginei o
tamanho dessa falta e o quanto ele ainda teria para me ensinar.
Adriana Muller me ofereceu essa oportunidade. Em uma sessão de terapia
narrativa ela me perguntou se poderíamos convidar o meu avô para dizer o que
ele estava achando de tudo o que eu estava vivendo.
Eu estava terminando o meu segundo casamento, uma relação intensa de 16
anos. Estava destruída, devastada. Havia sido desrespeitada em todos os campos:
familiar, financeiro, profissional, sexual, emocional. Eu me sentia um grande nada.
Mas um dia, falei do meu avô, falecido quando eu tinha 20 anos, para a Adriana.
Ele sabia quem eu era, ele me admirava, ele gostava de mim. Era sensível,
inteligente, mas também teve problemas amorosos. Casou-se com uma mulher –
minha avó – que era louca, bem precária, provocadora, raivosa. Eu ainda me
lembro dela humilhando-o, tratando-o como um nada. Mas ele era tudo para
mim.
Ele tinha que dormir de ponta cabeça porque ela não gostava do cheiro da cabeça
dele. Ele recebia o último pedaço do frango na mesa do almoço do fim de semana
com a família. E eu via, reparava, sabia. Eu era uma criança, mas eu sabia.
Adriana perguntou se poderíamos convidar o meu avô para uma conversa.
Perguntou se eu poderia ser o meu avô por uns momentos, pensar como ele,
lembrando de como ele me via e o que diria. Ela seria a entrevistadora. Ela
conversaria com ele, e eu responderia.
A conversa começou. Ela me chamava de Sr Álvaro e eu fui embarcando aos
poucos. A primeira pergunta, que já não me lembro, me pareceu forte, profunda,
difícil. Tentei responder, mas ainda era eu. Adriana percebeu, voltou uns passos e
começou a conversar com ele sobre situações que ela já sabia. O que me permitiu
entrar, devagar, na brincadeira.
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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