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além do que é esperado ou já conhecido e uma busca por encontrar aquelas
versões que revelem a identidade preferida da pessoa com quem conversamos.
A metáfora da construção de histórias alternativas, em busca da história
preferida, ajuda o terapeuta a contribuir com aquela narrativa na qual a pessoa
possa revelar o seu melhor. Não se trata de trocar uma história saturada de
problemas por outra que seja ‘melhor’ – um equívoco comum e uma crítica não
fundamentada à terapia narrativa. Trata-se de buscar formas de narrar o que
aconteceu e, também, os posicionamentos a favor e contra isso, os objetivos de
vida da pessoa e os legados que ela pretende deixar a partir disso. Trata-se de
narrar uma história que a pessoa considera que vale a pena ser habitada tanto
com o corpo quanto com a mente, e que é sustentada de forma coletiva por
pessoas significativas que fazem parte da sua rede de afetos, ou, nas palavras de
White (2008), do seu clube da vida.
Considero que perguntar é uma arte. E, como tal, precisa ser treinada com
disciplina e atenção. Afinal, são vários os tipos de perguntas e, cada uma delas,
abre diferentes narrativas e nos revelam histórias distintas. Dentro desse
contexto, David Epston (1998) nos apresenta as perguntas sobre o outro
internalizado:
Tais perguntas paradigmáticas podem versar sobre qualquer tema,
mas sempre convidam o respondente a responder a partir de sua
experiência da experiência do outro. Isso tem o efeito de minar as
práticas culturais que afirmam a existência de uma realidade
objetiva. (p. 68)
Por meio dessas perguntas, convidamos aquele que acompanhamos a responder
‘como se fosse’ uma pessoa significativa em sua vida. Esse caminho nos ajuda a
acessar a boniteza presente no tempo tríbio (Freyre, 2001): esse entrelaçamento
de passado-presente-futuro que acontece simultaneamente e constitui o tecido
sobre o qual tecemos nossas narrativas. No tempo tríbio podemos acessar
memórias, atualizar histórias e antecipar narrativas. Por entrelaçar os três
momentos da Vida – tri-bio – podemos ‘dizer olá novamente’ (White, 1989) e
construir, agora, uma história que nos represente, que reconheça as pessoas
significativas e que revele o nosso melhor. No tempo tríbio deixamos de lado o
conhecido e familiar e passamos a buscar uma versão ampliada, algo singular e
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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