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pessoa relatasse o que lembrava daquele momento. E fiz o mesmo com outra
pessoa que também viveu experiência semelhante. Esse texto é sobre essas
histórias e sobre as reflexões que fiz sobre elas.
A força das palavras bem-ditas
As palavras sabem muito mais longe...
Bartolomeu Campos Queirós
O processo terapêutico acontece por meio de conversas e envolvem,
invariavelmente, um entrelaçamento de perguntas com respostas, sendo que os
fios desse tear são as palavras. Confesso que sou encantada pelas palavras. Gosto
de perceber o cuidado com que são escolhidas pela pessoa, a força que elas
carregam e as possibilidades que oferecem para a conversa em curso. Para mim,
as palavras dos clientes são precisas e preciosas. E eu as respeito como tal. Além
disso, gosto de brincar com as palavras, de traduzi-las em poesia, de uni-las para
que revelem algo novo. Com as palavras, brinco de ser Duende e de criar
bonitezas.
Quando Michael White (2008) apresenta o conceito de testemunhas externas, ele
menciona as quatro perguntas norteadoras das conversas que se desdobram a
partir do que uma pessoa conta. Ao re-contar o que ouviu, aquelas pessoas que
ouviram o relato – as testemunhas externas – são convidadas a falarem sobre
quatro aspectos: 1) qual palavra ou expressão lhes chamou mais a atenção, 2)
qual imagem essa palavra ou expressão evoca em sua mente, 3) de que forma tais
palavras e imagens geram ressonância com a sua história pessoal, e 4) quais ações
ela se sente motivada a realizar a partir dessas lembranças e reflexões (o
transporte). Em sendo uma testemunha externa dos relatos das pessoas que
buscam terapia, eu escuto as palavras que elas usam em cada consulta com a
mente, mas, principalmente, com o coração. Vejo boniteza nelas, e elas me
encantam!
Me encanta ouvir alguém dizer: “estou me sentindo mais confortável em minha
pele”, “a estrada à minha frente já não tem tanta neblina”, “todas as coisas são
superáveis”, “tomei posse da minha força”, “minha vida está mais arejada”. A
poesia já está ali, e gera em mim imagens instantâneas a partir das quais surgem
as perguntas e os jogos de palavras. E, nessa dança da muDANÇA, acontece a disNarrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
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