Journal December 2025 Release - Flipbook - Page 69
67
uma experiência de boniteza.
Ele nos alerta para não deixarmos a terapia narrativa ser mais uma
‘macdonalização’, mas que ela possa mostrar a sua beleza com a cara e as cores
de cada povo, de cada cultura, de cada canto do mundo. Em termos freirianos,
que seja sempre uma experiência de boniteza.
Essas reflexões trouxeram com elas alguns questionamentos. O que estamos
fazendo de novo, de criativo, de interessante? O quanto de Duende, de espírito
de aventura, de pó de pirlimpimpim2 estamos colocando em nossos
atendimentos? Como estamos colocando nossa alma, nossa forma de ser, nossa
unicidade em ação em cada encontro terapêutico que temos com as pessoas que
buscam nossa ajuda? Como estamos contribuindo para que as histórias contadas
revelem a boniteza contida nas experiências vividas? Essas são perguntas que
reverberam em mim desde que traduzi o texto de David Epston (2019) – e são
elas que têm orientado meus passos ao longo da minha caminhada atual na
terapia narrativa.
Em 2020 iniciei o curso Artistry of Narrative Therapy com Tom Carlson, Kay
Ingamells e David Epston. A proposta do curso é realizar um aprendizado
constante sobre a arte de fazer perguntas dentro do contexto da terapia
narrativa, afinal, perguntar requer foco, dedicação e prática. Michael diria,
“pratique, pratique, pratique.” (Epston, 2016, p. 85). Em um dos encontros, David
esteve presente e pediu que a gente contasse como estava sendo a experiência
do curso. Foi quando contei que estava muito surpresa com os efeitos que eu
percebia – e que as pessoas relatavam – quando a consulta acontecia baseada em
perguntas para o outro internalizado (Epston, 1998). Ele ouviu atentamente
enquanto eu relatava a experiência mais recente: um encontro cheio de emoção
que terminou com a pessoa dizendo que havia sido algo tão especial que ela
guardaria para sempre em sua memória. Quando terminei o relato, ele perguntou
se eu havia pensado em escrever aquela história, afinal, uma conversa que
termina com a pessoa mencionando que vai guardá-la para sempre em sua
lembrança é algo que merecia ser honrado e escrito.
Percebi a boniteza dessa ideia e resolvi fazer algo mais: pedi para que a própria
2
É um elemento mágico bem brasileiro, criado por Monteiro Lobato nos livros do Sítio do Picapau Amarelo e que
funciona como gatilho de faz de conta.
Narrativando Conversas com o Outro Internalizado: uma Terapia com Pó de Pirlimpimpim.
Journal of Contemporary Narrative Therapy, December 2025 Release, p. 66-87.
www.journalnft.com